A mão do carrasco girou a chave.




Contei o pouco dinheiro que tinha na carteira, como sempre, paguei minha cerveja e acendi um delicioso cigarro do meu maço de apenas mais três restantes, levantei do banquinho desequilibrado do bar e somente encostei os braços na bancada, ficando de bruços para a porta de entrada.





Ouvi dizer que somente um ser pedante cava uma cova em sua alma e enterra sua loucura, no intuito de um dia desenterrá-la e achá-la mais contida, mais calada, menos agressiva… com suas infinitas dúvidas sanadas. Que esta tentativa de se tornar incólume era fajuta, e que iria dilapidar o único lampejo de lucidez existente. Para estas pessoas, eu deveria libertar minha insanidade. Mostrá-la sem receio das contestações e acusações.




me desoriento de propósito
tenho no desequilíbrio
a igualdade de tormentos
de pesos bonitos
minhas extremidades roxas






Eu disse:
entre nós
há um rio
de correnteza feroz.




Cresci
e tudo apequenou-se.
Os cabelos curtos me pesam
e os corto com frequência
pelo gosto em perder matéria;






— Senhores, eu conheci a altura de pisar o palco com o público de costas.





Minha mãe tinha um daqueles relógios-cuco de um e noventa e nove, uma coisa que parecia ter saído de uma viagem ruim de LSD.





O dia foi esguio. Tomei aquela pílula que o médico me receitou, mas não podia engoli-la porque não estava em sã consciência. Orfeu me disse que eu parasse de andar de um lado para o outro, pois aquilo não me faria pensar direito. Assistia Dr. Jivago e logo começaria a chorar novamente. A beleza não se situa nos olhos da carne, mas no pulsar cardíaco. O coração ficou esses anos todos vagando num limbo estreitamente grotesco. As meninas jogavam seus charmes na condução: conversavam mais alto para que fossem notadas. Mas eu ainda não via termo nenhum para confrontar aquilo com meu peito. E enquanto viravam-se as curvas mais sinuosas que deus ou qualquer ser superior, ia pensando sobre como cadáveres são pavimentados nos solos em tempos de guerra. Como as crenças acabam de um dia pro outro. E a morte se torna algo tão, mas tão lúdico que nem a mais progressista das maltas poderia negar a arte de morrer como um nomadismo. Meu pai faz as contas e não bate com nenhuma planilha. Eu lia Shakespeare enquanto minha mãe falava sobre a igreja e seus parcos costumes. Eu odiava quando Hamlet virava um nômade na sua própria história. Demorou pra entender o príncipe. Acabei de terminar os afazeres e Orfeu ainda ria de tudo. O tílburi vermelho não era mais tão sem graça. Eu era um nômade promíscuo, sem correlação com as pessoas que estavam ali. Eu via o badalar do pêndulo e ficava fitado: era um universo só meu. Mas às vezes eu me perdia nele. E me encontrava. E me perdia. Enquanto o coração batia, a cabeça girava, o corpo padecia. Os olhos enchiam de lágrimas e como Jivago eu buscava meu fim em mim.





Você me olha como uma porra. Você me olha como uma mulher feliz no zoológico no momento excelso: a jaula do leão. Você me olha como uma mulher que não leu Beauvoir e teme a beleza do fio de cobre na garganta de um amante de diamante, pensando que, se não é vaidade, deveria ser amor. Você não diz isso para o leão, que sou. Você joga uma pipoca pela grade. Ela tem sal. Cai no meu olho. De leão. Eu poderia rugir, mas, sefoder. Você jogou uma pipoca pelo meu bem. Você jogou uma pipoca porque você possui uma pipoca e é isso que se espera de alguém com uma pipoca. Você. Sefoder. Deixo meu pau de leão rubro e inchado, como se trinta e duas abelhas tivessem picado minha pica. Você fica tão vermelha quanto minha glande. “Que horror”. A vida é um horror, queria poder dizer, esse pau é um presente. Mas só posso rugir. E eu não vou rugir. Se eu rugir as pessoas jogarão mais pipocas, as pessoas tentarão tirar a foto excelsa da minha boca aberta. (Eu aprendi hoje a palavra ‘excelso’ no dicionário de pensamento felino). As pessoas gostam das garras, dos dentes, gostam de dizer que gostam das garras, dos dentes, mas as pessoas fogem de um leão solto. As pessoas não suportam o olhar frontal de um animal livre. Não suportam um pau roxo da cor do palato do céu do sentimento. “Você parece um leão com esse cabelo. Deveria cortar”. Ela me olhava de baixo para cima. Um ângulo que favorece minha juba. Ela corre os dedos pela minha juba. Ela olha com fascínio minha juba. É o momento que nasce ou morre o amor. EU SEMPRE QUIS TER CONSCIÊNCIA DESSE MOMENTO. Se eu falar que cortarei o cabelo bang! O amor está morto. Não sabia se o queria vivo. Sempre quis a consciência desse momento e agora me arrependo de tê-la. Eu aprendi que a morte é algo ruim. Sempre. Eu deveria ter lido Céline ao invés do dicionário de pensamento felino. Eu falei: “Sefoder. Sou a porra de um leão”. O amor que nasce de uma contradição é dois miligramas mais forte. Ela me olhou como Beauvoir o fez com Algren, quando descobriu que o pau e a vida de alguém que sente são muito mais interessantes do que o pau e a vida de alguém que pensa. Ela. A cabeça apoiada no meu colo. O olhar de baixo para cima. O meu pau cutuca a sua nuca, ela sorri, meu pau cutuca novamente, ela sorri e fica angustiada, sabe que a próxima cutucada é só uma questão de tempo, que acontece, ela dá uma gargalhada e abraça minha barriga. Volta. Fica séria. Olha para os meus olhos de leão sincero e de pau inflado. “Sefoder. Sou a porra de uma mulher”. Se ela falasse, o amor nasceria em mim. Ela não falou. Em um silêncio mágico de vidro agitando o alívio do vento alísio ela me deu sete orgasmos, um par de asas e um rabo de serpente. Ela montou em mim. Colocou a serpente ao redor do pescoço delgado, como se fosse um cachecol verde com olhos malignos de rubi, depois deu um tapa na minha anca e gritou: “Avante!”. Eu bati minhas asas de grifo. O céu nos abraçou. O céu tinha passado perfume de ameixa. “Vamos para onde?”. Sou um leão taxista das galáxias. “Me leva para onde você tem medo”. Existem várias oportunidades para o amor nascer na floresta da catarse.



Desconheço ao certo os motivos que me fizeram chegar até aqui.