Devaneios de um nômade promíscuo (2 min)






O dia foi esguio. Tomei aquela pílula que o médico me receitou, mas não podia engoli-la porque não estava em sã consciência. Orfeu me disse que eu parasse de andar de um lado para o outro, pois aquilo não me faria pensar direito. Assistia Dr. Jivago e logo começaria a chorar novamente. A beleza não se situa nos olhos da carne, mas no pulsar cardíaco. O coração ficou esses anos todos vagando num limbo estreitamente grotesco. As meninas jogavam seus charmes na condução: conversavam mais alto para que fossem notadas. Mas eu ainda não via termo nenhum para confrontar aquilo com meu peito. E enquanto viravam-se as curvas mais sinuosas que deus ou qualquer ser superior, ia pensando sobre como cadáveres são pavimentados nos solos em tempos de guerra. Como as crenças acabam de um dia pro outro. E a morte se torna algo tão, mas tão lúdico que nem a mais progressista das maltas poderia negar a arte de morrer como um nomadismo. Meu pai faz as contas e não bate com nenhuma planilha. Eu lia Shakespeare enquanto minha mãe falava sobre a igreja e seus parcos costumes. Eu odiava quando Hamlet virava um nômade na sua própria história. Demorou pra entender o príncipe. Acabei de terminar os afazeres e Orfeu ainda ria de tudo. O tílburi vermelho não era mais tão sem graça. Eu era um nômade promíscuo, sem correlação com as pessoas que estavam ali. Eu via o badalar do pêndulo e ficava fitado: era um universo só meu. Mas às vezes eu me perdia nele. E me encontrava. E me perdia. Enquanto o coração batia, a cabeça girava, o corpo padecia. Os olhos enchiam de lágrimas e como Jivago eu buscava meu fim em mim.
Enquanto era nômade, as pessoas fixavam-se em mim. E eu as tirava do meu universo. Divagava num limbo grotescamente prolixo. Divagava e sorria, junto com Orfeu, que me cedeu seu ombro. Chorei as mágoas da menina dos olhos verdes, que tentava chamar minha atenção: eram parcas as suas tentativas.

Quantos corpos mais vão pavimentar o solo da minha guerra interna?



13.04.2016

Nota da imagem: Fotografia de Gerhardt Isringhaus.

Um comentário:

  1. Gostei! A luta interna é a pior guerra de dois gigantes, a emoção e a razão.

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